Quem abriu o Deezer achando que só encontraria música nova talvez descubra outra coisa: metade do que está entrando nas plataformas pode nem ter passado perto de um estúdio de verdade. A empresa francesa resolveu jogar luz nesse caos e liberou uma ferramenta gratuita que identifica músicas feitas por inteligência artificial em playlists de praticamente todos os grandes streamings do mercado.
O detalhe mais curioso nem é a ferramenta. É o tamanho do problema. Segundo a própria plataforma, quase 75 mil faixas criadas por IA estão sendo enviadas todos os dias ao catálogo. Isso já representa 44% de todas as músicas novas recebidas pelo serviço. No começo de 2025 eram 60 mil por dia. O salto em poucos meses deixou claro que a indústria perdeu o controle da velocidade dessa onda.
E tem mais: 43% das pessoas que chegam ao Deezer vindas de aplicativos concorrentes já carregam músicas feitas por IA nas playlists sem nem perceber. A sensação é que a tecnologia atravessou a porta dos streamings e sentou no sofá antes que alguém pudesse reagir.
A empresa decidiu marcar as faixas produzidas por inteligência artificial e retirar esse conteúdo de recomendações automáticas e playlists editoriais. Traduzindo: o algoritmo vai parar de empurrar música sintética como se fosse descoberta orgânica.
A guerra agora é pelo dinheiro dos artistas
A discussão ficou muito menos tecnológica e muito mais financeira. Um estudo da Cisac citado pelo Deezer aponta que artistas podem perder cerca de 4 bilhões de euros por ano até 2028 por causa da explosão de músicas geradas artificialmente. A preocupação é simples: se plataformas forem inundadas por canções fabricadas em segundos, a divisão de royalties começa a virar um terreno perigoso para músicos humanos.
A pressão do público também já apareceu. Uma pesquisa feita pelo Deezer em parceria com a Ipsos revelou que 80% das pessoas querem que músicas feitas por IA sejam claramente identificadas nos aplicativos. Parece óbvio, mas até agora boa parte das plataformas vinha tratando tudo da mesma forma.
Enquanto isso, a inteligência artificial continua avançando num ritmo quase absurdo. Vozes sintéticas já confundem ouvintes, artistas reclamam de cópias digitais e gravadoras tentam correr atrás do prejuízo. O Deezer foi um dos primeiros grandes serviços a admitir publicamente que o problema saiu do laboratório e chegou direto no fone de ouvido de milhões de pessoas.
No fim, a pergunta ficou simples e desconfortável: daqui a alguns anos, alguém ainda vai saber distinguir um artista real de uma máquina treinada para parecer humana? Porque, sinceramente, essa discussão já deixou de ser futuro faz tempo.

