Nem sempre o que soa internacional vem de outro país. No Brasil, várias marcas cresceram apostando justamente no contrário: nomes estrangeiros, estética global e uma construção de imagem pensada para transmitir sofisticação desde o início.
Esse movimento não aconteceu por acaso. Em mercados competitivos, a escolha de um nome com aparência internacional costuma funcionar como atalho de percepção, associando a marca a padrões globais de qualidade — mesmo quando toda a operação começa localmente. Com o tempo, algumas dessas empresas não só consolidaram espaço no país como também passaram a integrar grupos multinacionais, reforçando ainda mais essa impressão.
Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Em 2024, as 25 marcas brasileiras mais valiosas somaram cerca de R$ 153 bilhões, com crescimento de 6%, segundo a Interbrand. Parte desse valor está ligada justamente à forma como essas empresas constroem identidade e reputação.
Exemplos conhecidos mostram como essa estratégia se espalhou por diferentes setores. O Habib’s, criado em São Paulo em 1988, adotou uma identidade inspirada no Oriente Médio e se tornou uma das maiores redes de fast food do país. O China in Box, lançado em 1992, ajudou a popularizar o delivery com uma proposta visual que remete ao exterior, embora seja brasileiro.
Mais antigo, o Bob’s surgiu no Rio de Janeiro em 1952 e é considerado pioneiro no fast food nacional, apesar do nome em inglês. Já a Kopenhagen, fundada em 1928 em São Paulo, construiu uma imagem ligada à tradição europeia no segmento de chocolates.
Há também casos em que a origem brasileira ficou menos evidente após aquisições por grupos globais. A Hemmer passou a fazer parte da Kraft Heinz, a Elma Chips integra a PepsiCo e a Brastemp está sob a Whirlpool. Esse tipo de movimento amplia distribuição e escala, mas também reforça a percepção internacional das marcas.
Por outro lado, algumas empresas mantêm identidade brasileira mesmo com presença global relevante. A Havaianas se tornou um símbolo reconhecido fora do país, enquanto a Natura expandiu sua atuação internacional ao longo dos anos. A Sadia, dentro da BRF, também consolidou operações além do mercado interno.
No fim, a principal leitura é menos sobre origem e mais sobre construção de marca. No Brasil, parecer global muitas vezes foi uma estratégia para crescer localmente — e, em vários casos, acabou abrindo caminho para uma expansão real além das fronteiras.
