Antes mesmo de muitos astronautas se tornarem ícones da exploração espacial, um personagem dos quadrinhos já circulava pelos bastidores da NASA com status especial. O beagle Snoopy, criado por Charles M. Schulz na tira Peanuts, acabou se transformando em um curioso aliado da agência espacial americana — com crachá simbólico, participação em missões históricas e até um módulo lunar batizado em sua homenagem.
A ligação começou em um momento delicado para o programa espacial dos Estados Unidos. Após o incêndio da missão Apollo 1, em 1967, a NASA buscava reforçar a cultura de segurança dentro da agência. Snoopy foi adotado como mascote dessa campanha interna, representando atenção a detalhes e prevenção de erros em missões complexas.
A parceria ganhou forma durante o programa Apollo. Em 1969, na missão Apollo 10 — considerada um ensaio geral para o primeiro pouso lunar — os astronautas deram nomes informais aos módulos da nave: o módulo de comando virou Charlie Brown, enquanto o módulo lunar recebeu o nome Snoopy. A missão não chegou a pousar na Lua, mas testou procedimentos essenciais para a Apollo 11, que realizaria o feito meses depois.
A escolha, no entanto, não era livre de riscos para a imagem do personagem. Na época, alguns críticos apontaram que associar um ícone cultural a um programa espacial cheio de desafios técnicos poderia sair caro se algo desse errado. Caso uma missão tivesse terminado em tragédia, o personagem popular poderia ter ficado ligado permanentemente ao fracasso.

Com o tempo, a ligação virou tradição dentro da própria NASA. Hoje, o “Silver Snoopy Award” é uma das maiores honrarias internas da agência, concedida a profissionais que contribuem de forma excepcional para a segurança aeroespacial — um reconhecimento raro, recebido por menos de 1% dos funcionários.
Décadas depois das missões Apollo, o personagem continuou orbitando o universo espacial. Em 2019, cientistas localizaram o módulo lunar Snoopy ainda em órbita da Lua. Alguns pesquisadores já sugeriram recuperá-lo para estudar os efeitos de décadas de exposição à radiação solar, embora uma missão desse tipo seja considerada improvável por causa do custo.
A presença do beagle também reapareceu no novo capítulo da exploração lunar. Em 2022, um boneco do personagem participou da Artemis I, a primeira missão do novo programa lunar da NASA, que pretende levar astronautas novamente ao entorno da Lua.
Curiosamente, Snoopy também inspirou um detalhe técnico pouco conhecido da vida dos astronautas. O gorro usado sob o capacete do traje espacial, equipado com fones e microfones, ganhou o apelido informal de “Snoopy cap”, porque suas laterais lembram as orelhas do famoso beagle.
Entre quadrinhos, cultura pop e exploração científica, o personagem acabou conquistando algo raro: um lugar permanente na história do programa espacial — mesmo sem nunca ter saído oficialmente da Terra.
