A cena ainda é comum em muitas cidades brasileiras: meninas faltando às aulas porque não conseguem comprar absorventes e mulheres improvisando com papel, pano ou qualquer material disponível. Esses episódios, embora frequentes, raramente recebem a atenção necessária. No entanto, começam a ganhar destaque à medida que o debate sobre dignidade menstrual avança.
Recentemente, uma mudança anunciada pelo Governo Federal buscou enfrentar parte desse problema. Agora, quem se enquadra nos critérios do programa pode retirar absorventes gratuitamente nas unidades da Farmácia Popular, com a autorização sendo emitida também nas UBS. Essa alteração, apesar de simples, elimina a dependência exclusiva do aplicativo Meu SUS Digital e, consequentemente, reduz barreiras de acesso.
Embora pareça uma adaptação burocrática, a medida traz impacto direto na vida de muitas brasileiras. Afinal, diversas pessoas não têm acesso constante à internet ou enfrentam dificuldade no uso de aplicativos. Assim, a possibilidade de emissão presencial aproxima o serviço da rotina de quem mais precisa.
Quem pode retirar os absorventes?
O benefício continua direcionado às pessoas que menstruam e que atendem aos seguintes critérios:
- ter entre 10 e 49 anos;
- estar inscrita no CadÚnico;
- cumprir ao menos um dos requisitos:
- ser estudante da rede pública;
- ter renda mensal de até R$ 218 por pessoa;
- ou viver em situação de rua.
Esse recorte, embora específico, é essencial. Ele prioriza justamente quem já enfrenta, diariamente, os efeitos mais profundos da desigualdade no Brasil.

Um avanço que revela um problema maior
A distribuição gratuita de absorventes vai além do gesto de assistência. Na verdade, ela joga luz sobre um tema que por muito tempo foi invisibilizado: a pobreza menstrual. Esse problema impacta milhões de brasileiras e interfere diretamente em áreas essenciais, como saúde e educação.
Quando o Estado facilita o acesso a itens básicos, ele também reconhece que menstruar, em um país tão desigual, pode significar exclusão. E, certamente, isso não deveria fazer parte da realidade de ninguém.
Por que isso importa?
A resposta é simples: dignidade menstrual não é luxo. Pelo contrário, representa uma condição mínima para que todas possam exercer sua cidadania plenamente.
Embora a simplificação do processo não resolva tudo, ela amplia as chances de que mais pessoas parem de improvisar, deixem de faltar aulas ou consultórios e tenham uma rotina mais segura. Além disso, reforça a criação de políticas públicas mais inclusivas.
Informação ainda é barreira
Apesar da divulgação nas redes oficiais, o alcance digital continua limitado em várias regiões. Portanto, é fundamental que as informações circulem também nas escolas, nas UBS, nas rádios comunitárias e nos grupos de bairro, onde o diálogo é mais direto.
Afinal, uma política pública só cumpre seu papel quando chega às mãos — e aos ouvidos — de quem realmente precisa dela.
Conclusão
A liberação da autorização nas UBS, somada à retirada nas Farmácias Populares, pode parecer um detalhe administrativo. Entretanto, essa mudança toca em assuntos profundos, como acesso, dignidade e igualdade. Quando o Estado reduz obstáculos, vidas inteiras se reorganizam.
Portanto, combater a pobreza menstrual exige mais do que ações pontuais: demanda informação, políticas eficientes e o reconhecimento de que nenhuma pessoa deveria sentir vergonha ou perder oportunidades por causa de algo tão natural quanto menstruar.
