Entrar em uma loja de cosméticos apenas para escolher um produto começa a parecer uma ideia limitada para O Boticário. A marca está ampliando o Studio Boti, modelo que transforma parte de seus pontos físicos em espaços para maquiagem, análise de pele e cabelo, hidratação e outros cuidados de beleza.
A mudança chama atenção especialmente pelo comportamento de quem experimenta o serviço. Segundo dados divulgados pela companhia, clientes atendidos pelo Studio Boti apresentam ticket médio 70% maior e retornam às lojas, em média, duas vezes mais do que aqueles que não passam pelas experiências.
É uma pista de como o varejo de beleza tenta resolver um problema antigo: diante de dezenas de séruns, fragrâncias, bases e tratamentos, experimentar e receber orientação pode pesar mais na decisão do consumidor do que simplesmente encontrar uma prateleira cheia.
Do espelho à inteligência artificial
O Studio Boti reúne diferentes tipos de atendimento. Há maquiagem rápida e gratuita pela Make Express e produções completas pela Experiência Make B., além de cuidados com a pele, cabelo, corpo, perfumaria e serviços voltados ao público masculino.

No skincare, a Experiência Botik incorpora análise facial e recomendação personalizada. Para cabelos, o atendimento pode utilizar um tricoscópio, equipamento que permite observar fios e couro cabeludo em detalhes antes da indicação de tratamentos da linha Match.
A tecnologia já chegou também ao restante da rede. O Meu Recomendador Botik utiliza inteligência artificial e visão computacional para analisar características de pele e cabelo e está disponível gratuitamente nas lojas da marca. Antes da expansão, um piloto realizado em 24 unidades registrou aumento de aproximadamente 80% no valor médio dos pedidos de skincare.
Outro experimento é o Espelho Inteligente, atualmente presente em quatro lojas. O equipamento identifica características da pele e sugere produtos, com previsão de chegar a novos pontos ainda em 2026.
Um salão escondido dentro da loja
A escala ajuda a entender por que o projeto ganhou importância. Cerca de 3 mil lojas já contam com estruturas de atendimento, enquanto 150 unidades possuem espaços exclusivos para experiências mais completas. Esse segundo grupo cresceu 25 vezes desde 2023.

A expectativa é ultrapassar 310 unidades dedicadas até o fim de 2026 e chegar perto de mil em 2028. Nesse período, O Boticário projeta multiplicar em até quatro vezes a receita ligada ao canal.
O modelo tem uma particularidade que aproxima a experiência de uma etapa de descoberta dos produtos: nos serviços pagos, o valor do atendimento é convertido integralmente em produtos. Uma maquiagem completa, por exemplo, aparece por R$ 139,90 no canal de serviços da marca, com o mesmo valor revertido para itens.
O resultado financeiro já vinha aparecendo antes da nova fase. Em 2025, o GMV relacionado às experiências cresceu mais de 60% em comparação com o ano anterior, enquanto o ticket médio dos serviços avançou 8%.
Nem toda experiência chega a todas as lojas
Apesar da expansão, os formatos não são simplesmente replicados pela rede. Novos serviços passam primeiro por unidades selecionadas, onde são observados indicadores como ocupação das agendas, conversão em produtos, satisfação, recompra e impacto no ticket médio.
Infraestrutura da unidade, fluxo de consumidores e perfil de cada região também interferem na escolha dos pontos que recebem estruturas maiores.
Lages, em Santa Catarina, tornou-se a primeira cidade a receber um Studio Boti premium, reunindo diferentes tecnologias e serviços em um único espaço. É justamente esse tipo de unidade que funciona como laboratório para descobrir até onde uma perfumaria pode se aproximar de um salão e de um centro de diagnóstico de beleza sem deixar de ser loja.
A lógica já apareceu em outras experiências da marca. O Boticário testou desde uma loja-conceito em formato de barco em Belém até atendimentos especiais em suas unidades Lab de Curitiba e São Paulo. Em 2026, a estratégia também apareceu na chamada Taxa de Beleza ligada ao C6 Fest, que transformava a taxa de serviço do ingresso em atendimento nas lojas.
Agora, esses experimentos deixam de parecer ações isoladas e passam a compor uma estratégia mais ampla.
O próximo passo inclui aproximar ainda mais o digital desse atendimento presencial. O agendamento atualmente pode ser feito pela plataforma de serviços da marca, enquanto a empresa trabalha em alternativas envolvendo canais como WhatsApp.
No fundo, a disputa não está apenas em colocar mais produtos diante do consumidor. O Boticário quer que alguém tenha um motivo para entrar, permanecer, experimentar e depois voltar à loja. Se a expansão prevista até 2028 funcionar, o Studio Boti pode transformar o atendimento de beleza de complemento em uma das principais razões para visitar a rede.

